A Fundação Educacional do Município de Assis, FEMA é uma das co-realizadoras da Mostra o Lixo, promovida pela CIRCUS (Circuito de Interação de Redes Sociais), e trará para Assis o premiado cineasta Carlos Reichembach para ministrar oficina e exibição do filme “Dois Córregos” seguida de uma palestra e debate aberto ao público.
A Mostra O LIXO é uma realização da CIRCUS (Circuito de Interação de Redes Sociais) e acontecerá no na cidade de Assis durante todo o mês de junho: um evento artístico que toma o lixo como ponto de intersecção entre diferentes seguimentos culturais. Em tempos em que as questões sócio-ambientais adquirem grande visibilidade no Brasil e no mundo, artistas re-inventam estas questões em suas obras de modo a expressar o contemporâneo em outras perspectivas. A proposta é de repensar a relação com o espaço urbano e seus dejetos, por meio das experiências sensoriais que a arte pode proporcionar. E ainda, com isto, trazer para o interior do Estado de São Paulo o acesso e difusão cultural de produções pertencentes a diferentes seguimentos artísticos.
Acontece, no dia 22 do mês de junho, na FEMA, oficina e palestra com apresentação do filme “Dois Córregos – Verdades Submersas” de Carlos Reichenbach. Carlão, como é conhecido no meio cinematográfico, foi um dos diretores mais expressivos do Cinema Marginal paulista em meados da década de 60, movimento também conhecido como Boca do Lixo, termo cunhado por Gláuber Rocha.
Espécie de dissidência do politizado Cinema Novo, o “Cinema da Boca” sonhava com espaço para experimentação em produções de baixo custo que tivessem apelo popular e espelhassem a realidade do País, refutando as regras de produção e distribuição nos circuitos comerciais.
Carlão foi aluno de Paulo Emílio Salles Gomes, Anatol Rosenfeld, Mário Chamie, Décio Pignatari, Roberto Santos e, sobretudo, de Luís Sérgio Person, que viria a produzir seu primeiro curta metragem. “Esta Rua Tão Augusta”. Aos 23 anos, fundou a Xanadú Produções Cinematográficas, com João Callegaro e o crítico mineiro Antônio Lima. Para concluir os filme, aproximou-se da Boca do Lixo, território cinematográfico onde conviviam realizadores de filmes comerciais de baixíssimo custo como Rogério Sganzerla e José Mojica Marins.
Com poucos recursos e muitas ideias, nasceram dessa fase criativa e transgressora de Reichenbach, filmes como: Corrida em Busca do Amor (1971), Lilian M, Relatório Confidencial, Sede de Amar (1977) e A Ilha dos Prazeres Proibidos. Ele fotografaria, entre outros, Excitação, Mulher, Mulher e A Força dos Sentidos (todos de Jean Garret). Em 78, dirigiu O Império do Desejo, filme de alto teor anárquico e pessoal, mas que dialogava com o público da comédia erótica. No ano seguinte, fez Amor, Palavra Prostituta e enfrentou o seu pior embate com a censura brasileira (o filme seria premiado pela Cinemateca de Bruxelas seis anos depois). Iniciou os anos de 80 com o existencialista O Paraíso Proibido e o episódio A Rainha do Fliperama.
Em meados da década de 80, Reichenbach começou a realizar filmes cada vez mais radicais em termos autorais e sua obra rompe o circuito Boca do Lixo com Extremos do Prazer (de 1983), selecionado para a mostra competitiva do Festival de Gramado, no qual ganhou o Prêmio Especial do Júri. Em 1984, foi (ao lado de Jonathan Demme) a sensação do Festival de Roterdã, na Holanda, com os filmes Lilian M, Amor, Palavra Prostituta e Império do Desejo, e recebeu, da crítica europeia, o epíteto de “Fassbinder tropical” (com o qual não concordava).
O divisor de águas na carreira do cineasta foi Filme Demência (1985), ainda hoje seu filme mais radical que ganhou em Gramado quatro Kikitos. Mas o festival gaúcho se renderia, em definitivo, ao realizador, em 1987, quando Anjos do Arrabalde ganhou o Kikito de melhor filme.
Nos anos 90, com o desmonte cinematográfico empreendido pelo Governo Collor, Reichenbach voltou a estudar música, foi dar aula de cinema na ECA-USP e fundou, com Sara Silveira, a Dezenove Som e Imagem. Realizou mais dois longas: Alma Corsária, Brasília/93, e Dois Córregos – Verdades Submersas, representante oficial do Brasil na competição do Festival de Locarno (Suíça).
O novo milênio passou um susto no cineasta. Dois enfartes – em seguida – o levaram ao hospital para longa convalescença. Saiu de lá com três pontes de safena e uma mamária. Ânimo e alegria de viver recobrados e ele abraçou dois grandes projetos: Garotas do ABC, o primeiro episódio do hexaédrico projeto ABC – Clube Democrático, e o melodrama político, Bens Confiscados, projeto produzido em parceria com sua amiga e atriz, Betty Faria (de Anjos do Arrabalde). Em 2008, concluiu o longa metragem Falsa Loura e lançou o livro ABC – CLUBE DEMOCRÁTICO, com os quatro roteiros contemplados com a Bolsa Vitae de Artes.
Divide a atividade cinematográfica com as funções de crítico e ensaísta em diversas publicações, além de participar de cursos e palestras sobre o filme brasileiro no Brasil e exterior. Durante quatro anos, também lecionou como titular da cadeira de direção cinematográfica do curso de cinema e vídeo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo. Reichenbach também tem ministrado inúmeros cursos de roteiro e criação cinematográfica.
Filme: Dois Córregos – Verdades Submersas

Dois Córregos é um drama intimista que narra o “rito de passagem” de duas adolescentes em 1969. Foi inspirado em fatos acontecidos com o diretor quando adolescente e na convivência com seu padrinho de batismo, durante o período em que ele ficou clandestino numa casa à beira da represa Billings da minha família. Mas é também é um filme político, já que seu eixo central é a história de um processo de desalienação e de recuperação de identidade. Apesar do tema político entrar “pela porta dos fundos”, a inspiração deste projeto foi essencialmente poética. São as relações humanas que interessam ao diretor.
Oitenta e cinco por cento do filme se passa na cidade de Dois Córregos, em dois tempos diferentes: a época do lançamento do filme e 1969. Com algumas cenas filmadas em Super 8 e em branco e preto, posteriormente ampliadas para 35 mm nos Estados Unidos.
Trata-se de um filme que tem uma relação especial com a música. Isso não acontece por acaso, afinal o diretor estudou música. A trilha do Ivan Lins e os arranjos do maestro Nélson Aires agem como um personagem do filme.
Sinopse
Em meio à repressão imposta pela ditadura militar vivem Ana Paula (Vanessa Goulart) e Lydia (Luciana Brasil), duas adolescentes burguesas e inexperientes que passam uma temporada em uma fazenda. Lá elas conhecem Tereza (Ingra Liberato) e convivem por um fim de semana prolongado com o tio de uma delas, Hermes (Carlos Alberto Riccelli), um homem misterioso que está clandestino no país.
Premiações:
*52o Festival Internazionale del Film Locarno – Representante Oficial do Brasil na Mostra Competitiva
* III Festival Luso Brasileiro Santa Maria da Feira – Prêmio de Melhor Atriz para Ingra Liberato
* Festival de Natal 1999 – Melhor Filme (Júri Oficial); Melhor Atriz Coadjuvante (Luciana Brasil); Melhor Trilha Sonora (Ivan Lins); Melhor Fotografia (Melhor Fotografia)
* 7o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá – Prêmio de Melhor Filme (Júri Popular); Melhor Diretor (Carlos Reichenbach); Melhor Atriz (Ingra Liberato)
* Prêmio SESC “Os Melhores Do Ano” – Melhor Filme (Júri Popular); Melhor Diretor (Prêmio dos Críticos)
* Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) – Melhor Diretor (Carlos Reichenbach)
* Grande Prêmio Cinema Brasil – Melhor Roteiro (Carlos Reichenbach)
* Latin Grammy Nomination – Ivan Lins has been nominated for Best Pop Instrumental Performance for Dois Corregos – a track from Dois Corregos: Trilha Sonora do filme de Carlos Reichenbach.
Programação:
Oficina: Café com o Diretor Carlos Reichembach
Local: FEMA
Horário: 16h-19h
Inscrições: circus@circus.org.br
Público: Adulto
Cinema: Dois Córregos – Verdades Submersas, com o diretor Carlos Reichembach
Local: FEMA
Horário: 20h