Geraldo de Barros inteiro em suas Sobras

Texto de Priscila Miraz

“Se só guardamos lembranças dos momentos tristes ou alegres, enlouquecemos. Felizmente existem os restos” (Geraldo de Barros)

A primeira câmera fotográfica de Geraldo de Barros foi construída por ele mesmo. Assim: na década de 1940 ele leu um manual de fotografia, provavelmente apresentado por um amigo, provavelmente Valêncio de Barros, com informações sobre como construir uma câmera fotográfica. Depois de pronta, passou várias horas nos arrabaldes da cidade de São Paulo fotografando os jogos de futebol de fim de semana. Para Valêncio essa era uma forma de ganhar algum dinheiro, vendendo as fotografias para jornais e revistas ilustradas. Barros se insatisfez e foi fotografar as ferragens da Estação da Luz.

Aí já tinha uma Rolleiflex 1939 (máquina que ainda podemos encontrar em algumas casas e em lojas que vendem artigos fotográficos como enfeites, antiguidades), que possibilitava voltar o filme depois que este já havia sido batido, sobrepondo as imagens. E ele fez várias sobreposições de imagens usando as ferragens da Estação da Luz, criando composições geométricas. Quando olho pra essas fotografias eu esqueço que são fotografias. Me sinto alguém olhando pra cima, em vertigem de tanto rodar. As fotografias me tomam pela mão e me fazem rodar, como numa ciranda de criança.

Geraldo começou a desenvolver uma intensa pesquisa com abstracionismo, começou a diluir fronteiras. Ele não gostava dos compartimentos, dos estáticos. Criou imagens móveis no fazer conhecido por congelar os instantes, a fotografia. Usou para isso múltiplas exposições do filme, riscos e desenhos nos positivos, integrou o aleatório em sua percepção da fotografia.

Sua primeira exposição individual, Fotoformas apresentou ao público brasileiro da década de 1950 um trabalho considerado precursor da arte de vanguarda no Brasil. Sua fotografia provocou espanto por trazer um olhar totalmente distante do automatismo da câmera fotográfica associada à visão e identificação quase instantânea do objeto. Criou espaços entre linhas que se harmonizavam no olhar do observador, que intuía ali um movimento: criava o movimento pela articulação plástica entre linhas e espaços vazios. Seu processo de criação tinha como princípio entender a fotografia como construção. Uma vez Geraldo disse que acreditava no erro. O erro compunha o trabalho. Ele criava com o erro porque o erro é um rico material de construção. Depois de FotoformasGeraldo deixou de fotografar e se aventurou em outros rumos.Em 1975, sua filha Fabiana de Barros lhe entregou caixas de negativos esquecidos, contatos nunca ampliados, cópias já um pouco apagadas de fotografias familiares e de viagem das décadas de 1940 e 1950. Geraldo de Barros se animou a fazer uma nova série fotográfica.Ele pensou e deixou o material ainda guardado, até 1988. Só então mexeu nas fotografias. Já estava sofrendo com as limitações motoras decorrentes de quatro isquemias. Vivia em uma cadeira de rodas e comunicava-se com dificuldade. Contava com a ajuda da fotógrafa Ana Moraes, sua assistente naqueles anos.

A caixa trazida pela filha depois de muito tempo perdida no armário colocou à sua frente imagens de uma vida, de sua vida, e lhe deu a possibilidade de criar a partir das fotografias entendidas como memória, a vida possível em suas condições físicas. Selecionou, organizou, recortou, colou usando as técnicas criadas no começo de sua carreira, para respirar outros ares, para fazer o que sabia bem: inventar. A série que criou então o manteve ocupado até sua morte em 1998. O título escolhido foi Sobras.

Encontramos espaços em branco ou preto ocupando o lugar do que antes estava preenchido por corpos, árvores, casas, céus, montanhas. Uma fotografia de um campo com uma árvore à esquerda e duas pessoas próximas à direita tem as figuras humanas retiradas e em seu lugar o preto colocado formando as siluetas das pessoas que estavam ali. Em outra, um fundo preto e duas crianças, uma em pé com as mãos na cintura em primeiro plano, e outra no canto esquerdo, um pouco afastada, sentada de costas. Vemos montanhas retiradas dos fundos da paisagem, árvores contornadas pela tesoura, ziguezagues nos campos de neve entre esquiadores, esquiadores que se tornaram siluetas negras curvadas, teleféricos recortados e colados sobre um fundo preto, de ponta cabeça, invertidos, pessoas com contornos brancos lhe acompanhando o corpo, como um tremor, um soluço visível, uma gagueira do olho.

É uma obra muito forte. Ela vibra e intensifica as presenças e as ausências. E quando você olha pra essas presenças e ausências tão evidentemente recolocadas, manipuladas, você diz que sim, que tinha que ser assim. Se em algum momento elas trazem alguma melancolia, ela se dissipa em humor. Não acontece com essas fotografias questionamentos como os de Barthes em A câmera clara: quem era essa pessoa, o que aconteceu com ela, se vive, se já morreu. Sobras está inteira no que é. E ela é presente.

A manipulação artística de Sobras permite a convivência da arte concreta e das fotos de férias que não tem nada a ver uma com a outra. Elas só podem existir da maneira como são na pessoa do artista: sua obra e sua vida. Os espaços que emergem são espaços construtores, são novas possibilidades do corpo, novidades para os deslocamentos alterados pela doença. Para Geraldo não é novidade a criação de uma vida: tudo é invenção. Toda paisagem é invenção. O corpo é uma invenção. Lembrar não é um ato passivo, é um ato de imaginação.

Parece querer negar a objetividade das fotografias que tiveram por décadas o encargo de serem memória e registro de uma vida. Subverte essa função primeira e lhe dá outra, a de ser a lembrança exercida no presente, a lembrança ativa e construtiva. Sobras se torna uma autobiografia rebelde. Afirmativa de uma vida rebelde, que se mostra muito bem humorada em ser mais uma vez rebelde. Ela não se mostra como uma cabeça saudosa voltada para o passado. Não se propõe a nenhum encerramento, a nenhuma narrativa memorialística. Ela exerce o que é pretensão das autobiografias: a vida. Ainda bem que Sobras é o resto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s