Impressões infames sobre a II Mostra o Lixo

Cia dos Infames - Mostra O Lixo 14O convite para participarmos da “II Mostra o lixo”, feito por Ricardo Abussafy que havia nos assistido em São Paulo, foi uma grande surpresa e um enorme desafio para todos nós da Companhia dos Infames.

O desafio consistia em realizarmos, após quase um ano, uma peça que demanda uma esforço corporal, vocal e de memória tremendos (um texto difícil e intrincado). Como se não bastasse, ainda deveríamos adaptar a peça para um teatro de 400 pessoas (diga-se de passagem maravilhoso!), sendo que as duas temporadas em São Paulo foram para públicos de até 50 pessoas!

Após a montagem dos cenários e iluminação (diga-se de passagem, uma equipe super competente e atenciosa) passamos algumas cenas e todos foram para o hotel, menos eu e Adriana Guerra, parceira mais que competente e que sempre confere uma enorme segurança para essa navegação estranha e arriscada chamada teatro.

Cia dos Infames - Mostra O Lixo 9Chega a hora. Teatro lotado. O rádio, que abre a peça com gravações de algumas aulas e palestras proferidas por Foucault ao longo da vida, falha. O público continua entrando. Dou uns socos e nada. Mais uns socos. E mais pessoas no teatro. Ele volta a funcionar. Adriana me olha e estamos prontos. Tudo corre perfeitamente bem (diga-se de passagem, que para as duas meninas que nos fotografaram para comprovar para a faculdade, e foram embora com 5 minutos de peça, com certeza discordam disso…nos divertimos com essa história).

A platéia (diga-se de passagem, super respeitosa e concentrada), nos ajudou a construir o silêncio necessário para que as palavras de Pierre Rivere e Herculine Barbin reverberassem por todo espaço escuro e desafiador.

Ainda tivemos a oportunidade de saber de todas as atividades realizadas pela CIRCUS e conhecer outras pessoas envolvidas nessa luta (de antemão perdida, mas por isso mesmo revolucionária) de tentar fazer com que o teatro (e a Arte) deixe de ser absolutamente desnecessário – fato concreto nos dias de hoje. (um garoto, de 13 anos, nos pergunta no jantar: “e aquela música (Morango do Nordeste) que colocaram?” Nosso diretor, surpreendido pergunta: “Por que?” E o menino: “Ela traz uma coisa estranha para a peça”….É, talvez ainda faça algum sentido….).

Cia dos Infames - Mostra O Lixo 2Para nós da Cia dos Infames que estivemos em Assis (Cristiano Burlan, Adriana Guerra, Henrique Zanoni, Borys Duque, Rodrigo Saches e Mariela Lamberti – que, diga-se de passagem, deixei um pedacinho de seu pé no palco…) a Mostra Lixo foi muito poderosa, marcante e significativa.

Nestes tempos bunda-mole que vivemos, a infâmia toma caras diversas, posições distintas, formas variadas, mas todos, de alguma maneira, estamos do mesmo lado. Foucault sempre se interessou pela história não por alguma busca nostálgica, mas para mostrar que outros modos de vida são possíveis. Se o poder está em todo lugar, sem nome, sem centro, sem distinção, também todos, sem nome, sem centro, sem distinção podem exercer alguma forma de resistência (diga-se de passagem, a banda tocando apenas Nação Zumbi no galpão foi arrebatador!).

Enfim, vida longa a Mostra do Lixo.

E que mais “lixos” sejam colocados nesse caldeirão cultural. “Olho na pressão, tá fervendo. Olho na panela. Dinamite é o feijão, dentro do molho dela”.

De nossa parte, sempre estaremos com o braço estendido para Assis!

Henrique Zanoni Fundador, ator e dramaturgo da Cia dos Infames.

Cia dos Infames - Mostra O Lixo 1

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