Algumas impressões sobre a Abertura da Mostra o Lixo

Priscila Miraz

Nenhuma exposição pode prever como será vista. Ela pode supor. Daí as intenções de sua disposição. Sempre existem as sutilezas no explícito, que podem ser vistas pelos visitantes em ordens diferentes alternando sempre as sensações. Porque pro visitante as exposições são primeiro as sensações, antes das possíveis direções que o pensar sobre elas venha nos dar. Mesmo pros que vão preparados. Pra mim ela começou no chão. Claro que de longe vemos primeiro a arte do grafite na fachada. Mas quando vamos entrar, se por curiosidade ou distração baixamos o olhar, vemos as pequenas bicicletas pretas no calçamento, que pisamos despercebidos. A que se repete ainda uma vez do lado esquerdo da porta de entrada, dentro do grafite. Pequenas pegadas.

As cores fortes da Camila nas telas abrem espaço pra leveza dos lençóis da Thais no espaço singular de um meio deslocado da sala branca, que aos poucos e em intervalos se risca, se franze com os ruídos dos vídeos da Roberta que ultrapassam o espaço reservado onde são exibidos.

Andando como se anda em uma exposição: de um lado pro outro, seguindo o que prende o olhar, ou buscando qualquer seqüencia que as obras possam propor, o gesto sempre solicitado é o de se deter. É necessário no instante criar outro tempo que lhe é pedido pelo que se observa.

Nas cores fortes da Camila encontramos trechos de memórias emprestadas das imagens de revistas velhas que nos espiam de lá de longe, da propaganda de sabonete, de um Mickey pedindo pra ser impossivelmente recomposto pelo olhar, em uma menina com cara de década de 1970 que sorri confortável em uma só perna recortada. São imagens que recobrem outras. No fundo de cor única das telas é possível saber que antes ali tinha outra coisa.

Dos lençóis é possível se aproximar com o toque, com o nariz. Passando entre eles, se colocando do lado de dentro do círculo, transitando entre, permitimos outra vez o contato com o corpo que é sua primeira função no cotidiano. Sobre as estampas, entre rasgos, sempre mulheres. Entre as mulheres a frase: “Compro, logo existo”. Os lençóis já não parecem tão leves.

Seguindo para os vídeos, a repetição com ruído. Um par de pernas vestido de diferentes formas, andando pelos dias. A estranha sensação de que são as nossas próprias pernas que vemos de cima pra baixo caminhando por lugares repetidos, todos os dias. Todos os dias. Um cotidiano recortado, separado e exibido.

Desacomodar as sensações pro cotidiano. Abarcar no olhar o que costumamos deixar desaparecer. Exercer arte com os restos e estar sempre falando do corpo: as obras postas em diálogo com as teorizações das artistas na mesa de abertura da Mostra o Lixo. Como as pequenas bicicletas no chão, o grafite, as telas, os lençóis, as imagens, os ruídos ponteiam um mapa conhecido para que se torne outro: muda nossa atenção quando nos pede outro gesto, o inverso. O que ficou tão bem marcado na entrada da exposição, quando para pegar a programação da Mostra, temos que retirá-la de dentro da lata de lixo. Começamos.

5 comentários em “Algumas impressões sobre a Abertura da Mostra o Lixo

  1. Texto da Pri muito gostoso de ler. Não fui à exposição, mas depois dessa leitura tão descritiva, já tenho uma boa imagem por aqui! Parabéns!

  2. Pri, suas palavras nos vão guiando pela exposição, é possível, mesmo daqui, detrás das telas dos computadores, sentir o nariz tocando o pano! Maravilhosas sensações! Seu texto nos transporta à exposição. Um abraço gigante e parabéns!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s