Vira Lata do Lixo

Carla Alves de Carvalho Yahn

            Na lata do lixo e em seus arredores, num cenário que é formado pelo próprio lixo, o corpo movimenta-se partindo do não movimento e se mostrando lentamente ao público. A revelação do corpo em cena se dá dentro da ótica que focaliza uma mulher que vive no e do lixo. É este que dá sentido a sua existência, é no lixo que ela encontra espaço para “ser”, ele é seu meio de “supervivência”, tal a ideia de viver do lixo. Alimenta-se e adorna-se nele e dele, se entrega como uma mulher que se entrega a um homem. Além disso, não se torna apenas parte, mas se personifica como lixo e assim vive num movimento de plena troca, vive no lixo. A dança adentra num mundo onde a adversidade de viver na rua, e, eu diria que mais especificamente, em torno e dentro de lixões, se encontra na própria fragilidade humana, como acontece quando o frio é um dos contendores que se deve vencer. É então que surge retratos de formas de existências que podem ser mostradas como fonte de arte, arte de criar mundos e não apenas representá-los. Quando ainda partindo do chão o corpo se mostra reprimido pelo frio, os movimentos começam a intensificar-se, numa ânsia de acobertar-se e continuar vivo em cena. Ainda vencido pela escuridão da noite fria ele não é apresentado de maneira clara, isso só acontecerá quando partir para um plano médio em que a lata do lixo servirá de apoio para essa “subida”, ou melhor, “levantada” do corpo, o que acarretará em luz e cores. É então que a lata do lixo se torna busca e encontro, pulsação e luz, imagem e som. É do lixo que o alimento surge, é no lixo que ela se alimenta, seus convidados a um jantar especial são lixos iluminados, lixos especiais, que fogem num movimento antagônico de procura. Nessa brincadeira, o flutuar revela-se como um balé que se constrói no ar, numa mistura poética de encantamento e ingenuidade. A figura da mulher se mostra como a noiva do lixo, a noiva que dança, que se enfeita para entregar-se ao seu único companheiro, o lixo.

O corpo dançante parte da condição humana que se apresenta de forma afetada aos instintos e vontades. Em dado momento do espetáculo o corpo entrega-se ao primitivo, movimentos selvagens são revelados pela natureza humana, até o encurvar do corpo favorece essa ideia. É justamente depois desse grito ao retorno que literalmente o corpo dançante torna-se a própria lata do lixo. É o corpo que anima o lixo, dá-lhe pernas para caminhar, dançar e movimentar-se, dá-lhe sopro e palpitação. Além do corpo, cordas movimentam outras latas de lixo, numa coreografia dançante em que lixo é corpo e corpo é lixo. A equipe composta por três pessoas dá conta do espetáculo que parte de um tema tão em voga que deve ser olhado com mais carinho como parte de nossas vidas, tema que em muitos momentos passa desapercebido. Mais do que perceber a performance que é construída no lixo, o espetáculo pode nos fazer inferir mundos que aparentemente se revelam tão distantes e que na verdade são artefatos de nosso próprio modo de existência, que na modernidade se mostra muito mais intensificado pelo organismo responsável pelo consumo exacerbado e pela lógica do descartar. Enfimo espetáculo na lata do lixo é fechado com “chave de ouro” pela dançarina que gira intensamente do plano alto ao chão, talvez propondo uma volta ao próprio lixo, que pode ser feita através da redução, da reutilização, da reciclagem, em que a imagem do giro pode ser interpretada como o retorno cíclico e dinâmico do ser humano no planeta.

3 comentários em “Vira Lata do Lixo

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