O papel dos homens ou os homens de papel

por Sandro Essencio

“Homens de papel” é uma realização brilhante. Do texto sempre atual de Plínio Marcos, que é de 1968, à montagem simples e inteligente do grupo Cia Amante de Teatro, de São Paulo, tudo está bem ajustado ao efeito desejado e produzido. Trazem personagens que são catadores de papel, a mando de um encarregado que só os explora, em condições desumanas e degradantes. Num contexto urbano de miséria e carência constante, três personagens advindos do universo rural – um casal (Nhanha e Frido) e sua filha doente (Gaia) – são integrados ao grupo não por afinidade, mas por questões de proximidade de classe. A mãe diz “A gente só sabe fazer isso: catar papel!”. O grupo já formado recebe os novos trabalhadores, dá-se o encontro e o reconhecimento que gera a ação da peça.

Os catadores estão organizando um movimento de greve contra o patrão – Berrão –, para que ele seja mais justo e menos autoritário. Nhanha é contra, e decide trabalhar. O marido envolve-se com bebida e trai a esposa. O descaso do pai gera o caso absurdo de Côco, um jovem com sérios distúrbios, que abusa de Gaia. Gaia tem um ataque e morre, os catadores sem mais delongas matam Côco através de um linchamento espontâneo e até banal.

Dita assim de um supetão, a peça perde muito de seus elementos dinâmicos. A Cia instaura todo um ambiente, desde a entrada no espaço físico do Teatro, com algo de um trabalho de Umbanda ou Candomblé e o soar de atabaques, até o início da peça há uma transição natural, minimizando o choque do início da realidade ficcional sobrepondo-se à nossa realidade de espectadores que foram contemplar uma peça. O texto é forte no seu conteúdo e por explorar um ambiente degradante torna-se todo ele retrato da degradação.

Não é de se espantar que os personagens nunca sejam representados em atividade, na rua, recolhendo papéis, isso geraria uma imagem de movimento e amplitude que a vida deles, conforme representada na peça, não possui. Toda a ação se resume ao convívio dos catadores entre si, toda a ação é ação da exploração da extrema miséria em que eles se encontram, onde o encarregado Berrão  age como um elemento intensificador do sofrimento das personagens. Nem o álcool é uma saída, de todo, reconfortante, uma vez que a ressaca e cansaço de Frido após a noite de porre o impede de ir trabalhar, atando-o ao ambiente dos catadores, aproximando-os cada vez mais.

No contexto da Mostra “O Lixo”, a peça cumpre uma função duplamente importante. Na primeira apresentação, durante uma reunião do Comitê Regional de Catadores do Oeste Paulista a Cia apresentou a peça para pessoas que em maior ou menor grau vivenciaram esse tipo de experiência, pessoas que possuem histórias parecidas às das personagens. A relação de proximidade entre os heróis representados e o público presente dá à peça a possibilidade de dialogar com o grupo social em questão, expressando suas angústias mais inexprimíveis.

Na segunda apresentação, à noite, no Teatro da FAC, voltado para um público pequeno-burguês, a conversa é um pouco diferente. Um público que possui conhecimento para ir desfrutar uma apresentação teatral e cujo desenvolvimento foi bem diferente do desenvolvimento subjetivo das pessoas representadas na peça. Para esse público, a peça funciona como uma oportunidade de refletir sobre os limites do que é o humano em nossa sociedade. O que acontece com o excesso que desperdiçamos, o que sentem as pessoas que ignoramos todos os dias, ou pelo menos, a peça lhes oferece repertório para um início de reflexão.

No jogo de forças massificadoras pelo qual passam todas as artes em nossa época, o teatro permanece, muitas vezes, como uma ilha. O momento da representação, o contato direto do público com o texto vivo na boca dos atores confere ao teatro um aspecto de hic et nunc – aqui e agora – um ar de irrepetibilidade, que a reprodução em série eliminou de todas as outras artes. Ainda que possamos encontrar peças açucaradas que são como subprodutos das telenovelas, há uma tendência que se afirma há mais de meio século – com o Teatro do Oprimido, de Rua, Épico etc – de um teatro que trabalhe para a emancipação, que tematize as minorias, que retrate o cotidiano dos excluídos, dos descontentes. Essa peça, nesse contexto, reafirma positivamente esse aspecto.

Entre os inúmeros pontos nefastos do capitalismo a peça analisa dois momentos dignos de nota: a alienação e a reificação. Alienação pois as pessoas fazem o que lhes é prejudicial, e continuam fazendo, sem adquirir consciência do processo, sem perceber o poder transformador de suas ações individuais e coletivas. E reificação porque tudo, na sociedade capitalista, tende a ser transformado em coisa, mesmo as pessoas e as relações humanas, tudo é comercializável, tudo é descartável como se fôssemos feitos, todos, de papel.

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